sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Invenção do Século



Segunda-feira, chovia. Não era entretanto uma chuva corriqueira do tipo melancólica, mas sim torrencial, violenta, quase uma enchente.
Ana espiava pelas frestas da veneziana aquele aguaceiro caindo, enquanto calçava seus tênis surrados de caminhada e se preparava pra sair. Estava animada. Ao seu lado estava uma pequena caixa de um tipo de plástico transparente, no qual palavras e imagens se moviam como uma forma de publicidade chamativa. No momento em que pegou-a nas mãos esta exibia o texto “pluvioshield, a invenção do século para seu uso pessoal”. Abriu-a. Retirou de dentro dela um aparelho que, como dizia a moça da propaganda, possuía tecnologia GFH-1.
Ansiosa que estava por estrear o produto não clicou no ícone explicativo da embalagem animada, apenas jogou-a num canto da sala e prendeu o pluvioshield à cintura.
“Uma maravilha!” pensava agora Ana da mesma maneira que todos quando a dez anos atrás a Bluetec inventou os óculos dryvision, mas estes só ficaram em 37º lugar na votação para a invenção do século, apesar da intensa campanha publicitária feita pela empresa. Talvez por isso agora os tais óculos viessem como brinde pra quem comprasse o pluvioshield na “oferta imperdível” anunciada essa semana na HV (holographicvision, uma TV holográfica).
O aparelho em questão assemelhava-se a um cinto com uma grande fivela em formato de escudo. Era azul e feito de um material flexível que lembrava borracha, exceto pela parte da “fivela” que parecia mais ser feita de plástico. No centro via-se, em baixo relevo, a gravura de um pequeno guarda-chuva que parecia apenas um simples detalhe artístico do produto, mas começou a emitir uma luminosidade esverdeada de suas ranhuras quando foi tocado por Ana.
Ao abrir a porta de casa e aproximar-se da chuva não soube que os sensores do pluvioshield haviam sido ativados, nem que, em menos de um segundo, haviam feito uma análise completa da umidade relativa do ar. A única coisa que pode perceber foi um suave bip.
Em passos hesitantes caminhava agora para fora, onde a água caia sem piedade. Sentiu um frio na barriga de ansiedade e receio de que aquele mecanismo tão sofisticado pudesse estar com defeito. Resolveu fechar os olhos para criar coragem e prosseguir. Deu, às cegas, mais alguns passos à frente. Nada, nenhuma sensação diferente... Nada que pudesse anunciar um efeito tão espetacular quanto o prometido pelo comercial.
Ana estava apreensiva, quase decepcionada, mas de repente atinou para o fato de que nesse “não sentir nada de diferente” estava incluído também a chuva. Não sentia nem mesmo uma única gotícula tocar-lhe a pele. Estava agora perplexa. Pensou “uau!” e por um instante mais quis permanecer com os olhos cerrados sentindo apenas a leve brisa que se formava com o movimento da água caindo. Imaginou, por mais um instante, como seria quando abrisse os olhos pra poder comparar o que havia pensado com o que realmente aconteceria e ver se acertava. No momento seu estado mental beirava a euforia. Teve então a idéia de contar até três e abrir os olhos de uma vez. Respirou fundo e contou. Um... dois... três!
Estava estarrecida, pois a beleza do que via ia além do que imaginara. Sentiu-se bem e poderosa. Era agora como a versão feminina de Moisés. Era uma deusa: a deusa Ana.
Talvez tenha sido essa mesma emoção, provocada nas pessoas certas, que tenha feito o pluvioshield ganhar o 1º lugar no concurso da invenção do século, deixando em 2º uma invenção tão boa como o oz-prey. Mas quem se lembraria de um spray que protege contra os danos da excessiva radiação ultravioleta dos tempos atuais quando tinha na mão um efeito tão fabuloso quanto o proporcionado por um gerador de força hidrorrepelente (no caso um GFH-1)?
Via a chuva descortinar-se diante dela para deixá-la passar. Era uma rainha e, por isso mesmo, toda a água se curvava perante sua presença. O efeito visual da coisa toda era igual ao de estar protegida por um globo de vidro de um metro de diâmetro, só que não havia vidro algum. Algo bem surpreendente quando se pensa nos velhos e antiquados guarda-chuvas que, durante séculos, foram usados até que alguém tivesse uma idéia melhor.
Passado o surto megalomaníaco, estava pronta para caminhar. O único inconveniente agora era não poder ver o caminho com clareza devido às condições climáticas, mas isso foi logo resolvido quando colocou seus óculos dryvision que lhe permitiam ver tudo que não fosse água em qualquer um de seus estados. Feito isto, seguiu confiante rumo ao horizonte e além.
Foi aquele um momento feliz, talvez até memorável, apesar de semelhante ao de muitas outras pessoas naquele mundo e tempo específicos. Seria mesmo inesquecível para Ana, não fosse o fato de no dia seguinte inventarem as pluviovests, roupas que já vinham de fábrica equipadas com um GFH-2.

Ass.: Márcio Beckman.

5 comentários:

Um Momento disse...

Bom dia
( Ainda não li tudo)
mas trago-te um Trevinho da sorte para alegrar teu dia
Beijinho e voltarei mais logo para te ler:)))
(*)

Um Momento disse...

Voltei
Li e muito gostei:))))
Deixo um beijo e desejo um dia lindo!!!

(*)

António Melenas disse...

Mas que imaginação! E é comigo que tu desejas aprender?!!!
Pobre de mim.
Obrigado pelas tuas visitas e comentários.
Abraço

Ariane disse...

Puxa! Que incrivel jeito de colocar no papel sua imaginação incrivel! Vc escreve de uma maneira fantástica. Parabéns!!

Sophia Vieira disse...

em SP estao usando destes né... rs
adorei!
li o homem dos 5 sentidos tb! adorei mais ainda!!!!!