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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Homem de Cinco Sentidos




Existia um lugar no universo conhecido como planeta 88, em que as pessoas só possuíam quatro sentidos: visão, audição, tato e paladar. Faltava-lhes o olfato. Era um lugar bastante pacífico e de pessoas amistosas que viviam em prol do outro e respeitavam as suas diferenças, de forma que, cada uma contribuía como podia para a sociedade e era considerada importante para o todo.
Certa noite alguns habitantes do planeta 88, conhecidos como octo-octos, juraram que viram uma luz prateada de forma oval cruzando o céu, mas isto aconteceu num piscar de olhos, desaparecendo de forma tão rápida e silenciosa que acabou por virar apenas mais um dos muitos relatos de óvnis sem nenhuma credibilidade a povoar as lendas locais.  Nessa mesma noite aconteceu outro fato estranho: o desaparecimento de um bebê e o seu posterior reaparecimento no dia seguinte numa lixeira a algumas quadras de distância. A família nunca soube explicar o ocorrido e a polícia tampouco. Difundiram-se, na época, alguns boatos sobre abduções, mas como mais nada de estranho aconteceu nos dias que se sucederam, os dois fatos acabaram por ser substituídos pelo próximo assunto do momento.
Trinta anos depois anos, entretanto, surgia uma nova manchete nos jornais dos octo-octos: O Homem de Cinco Sentidos. Segundo fontes confiáveis o sujeito tinha a estranha habilidade de perceber as coisas sem precisar vê-las. Dizia que conseguia sentir o sabor delas no ar e assim sabia se essas coisas estavam ou não presentes no ambiente a sua volta. Ele ganhou a atenção da mídia quando conseguiu detectar um vazamento de gás na casa de amigos, evitando, assim, que acontecesse uma tragédia.
Logo o Homem de Cinco Sentidos tornou-se um herói local, fazendo sucesso entre o povo. Dessa forma, acabou arrumando um cargo como fiscal sanitário e, com o passar dos anos, foi acendendo até se tornar ministro da saúde.
Sua vida ia de vento em popa, mas havia um inconveniente: com as mudanças que sua vida havia sofrido foi, gradativamente, migrando para cidades cada vez maiores e, com isso, tendo mais contato com as sujeiras do mundo. Para os octo-octos em geral, que não possuíam o olfato, aquilo não era nenhum problema, mas ele começou pouco a pouco a enjoar de todos aqueles cheiros ao ponto que estes acabaram por se tornar insuportáveis.
Logo, começou a adotar medidas muito severas em relação a tudo que lhe causava náuseas e com isso despertou o desagrado dos octo-octos que não viam sentido nenhum em suas ações.
Era certo que o povo do planeta 88 era conhecido por conviver com suas diferenças de forma pacífica e harmoniosa, entretanto era difícil para eles lidar com aquilo que, por mais que tentassem, não conseguiam compreender. Logo, todo esse modelo de sociedade perfeita caiu por terra, quando os octo-octos começaram a ter opiniões diferentes sobre o assunto: uns queriam que o Homem de Cinco Sentidos fosse afastado do cargo e outros confiavam em seu julgamento, achando que ele estava fazendo o melhor para eles.
Nunca, na história dos octo-octos, houvera tamanha polêmica. Como estavam desacostumados com tal divergência de pensamento, logo entraram em guerra de tal forma que se acabou por dizimar toda o povo do planeta 88, com a exceção do Homem de Cinco Sentidos, que, a essa altura vagava solitário, sentindo-se culpado por tudo aquilo.
Em sua tristeza olhou para o céu e viu uma estrela cadente. Já, sem qualquer outra esperança, desejou estar novamente entre pessoas e que fosse compreendido como igual. Fechou os olhos e concentrou-se no seu pedido. Ao abrir viu que muitas outras estrelas cadentes acompanhavam aquela primeira, que agora parecia mais uma luz prateada e oval que se dirigia em sua direção. Em pouco tempo as luzes pousaram e agora, por todo lado, via-se imensas hidronaves hiperespaciais prateadas, construídas com a avançada tecnologia GFH-5 terráquea. De dentro delas desembarcavam milhares de terráqueos colonizadores que circularam pelos arredores fazendo analises do solo, da água e da vegetação.
Ao se depararem com o Homem de Cinco Sentidos, esboçaram um simpático sorriso. Nesse momento, houve um entendimento, sem palavras de que eram iguais, ao se reconhecerem pelo cheiro que, entre eles, era familiar.
Daí em diante passou a viver feliz o restante de sua vida comum sob os mares do planeta 88 nas hidrabitações terráqueas que mantinham a água suspensa e tornavam o fundo do mar habitável por meio da tecnologia GFH-4. E, quando queria sentir-se um pouco diferente, saia para passear em seu veículo aquar personalizado, movido com um potente motor GFH-3, coisa que era novidade naquele novo mundo.


Ass.: Márcio Beckman de Souza


Assista: O Perfume (filme) 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Trabalho Árduo

Inspirado na crise que anda assolando o nosso país nesses últimos tempos escrevi este texto:


Todos os dias, exceto aos domingos, Solano Dias sai de casa às 6:00h para trabalhar, após tomar seu nutritivo café da manhã. Deixa sua residência vestido numa calça social preta, camisa branca, gravata vermelha e sapatos bem engraxados. Seus cabelos pretos sempre bem penteados e no rosto um sorriso de vendedor difícil de tirar.
Logo de manhã cedo, entre as 6:00h e 7:00h, ele sempre encontra alguma pessoa solitária saindo também para o trabalho e cumprimenta “bom dia, amigo!” e costumeiramente o cumprimento é recíproco. Como sempre é pontual pela manhã quase sempre deixa o relógio em casa e assim aproveita para perguntar “você tem horas?”. Na maioria das vezes o estranho olha o relógio e lhe dá a resposta de boa vontade. Algumas vezes é um relógio barato, em outras, um que custaria o salário recebido por uma família pobre durante um ano inteiro. Nesse último caso, faz para o sujeito a pergunta “e o que mais você tem aí?”, acompanhada do gesto de tirar a pistola 9mm da maleta que carrega. A pessoa então, no susto, passa tudo o que tem: relógio, carteira, celular, a chave do carro e, com freqüência, perde até as roupas.
Em um bom dia, Solano consegue fazer dois ou três desses assaltos antes da hora das lojas e bancos abrirem. Então ele, sempre de cara limpa e sorridente, visita um ou mais desses lugares e rouba tudo o que consegue.
Lá pelas 10:30h, quando tudo corre bem, já está em casa fazendo as contas de todo o dinheiro que arrecadou e estimando quanto ganhará pelas coisas que irá vender. Após esse trabalho todo, vai para a cozinha preparar seu almoço para, em seguida, comer e dormir por pelo menos umas 8 horas o “sono dos justos”.
Quando acorda começa sua vida noturna. Sem a maquiagem e o disfarce que usa durante o dia, está agora bastante diferente. Mostra-se um jovem de cabelos loiros cuidadosamente despenteados vestindo uma camiseta estampada, bermuda e óculos de lentes coloridas, num estilo bem próprio para sua profissão de D.J.
Após comer alguma coisa, saí em um dos seus belos carros importados e segue para uma das boates mais V.I.P.s da cidade, onde é a estrela da festa. Quando tudo acaba, volta para casa para novamente tomar seu café da manhã reforçado e se arrumar para mais uma manhã de trabalho árduo.

Ass.: Márcio B. S.

Ouça: Seu Jorge - Trabalhador

Ouça também: Gamma Ray - Money

Assista: As Loucuras de Dick e Jane (filme)

Leia: A Lição Mais Importante

Leia também: "Os malefícios do alarmismo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Invenção do Século



Segunda-feira, chovia. Não era entretanto uma chuva corriqueira do tipo melancólica, mas sim torrencial, violenta, quase uma enchente.
Ana espiava pelas frestas da veneziana aquele aguaceiro caindo, enquanto calçava seus tênis surrados de caminhada e se preparava pra sair. Estava animada. Ao seu lado estava uma pequena caixa de um tipo de plástico transparente, no qual palavras e imagens se moviam como uma forma de publicidade chamativa. No momento em que pegou-a nas mãos esta exibia o texto “pluvioshield, a invenção do século para seu uso pessoal”. Abriu-a. Retirou de dentro dela um aparelho que, como dizia a moça da propaganda, possuía tecnologia GFH-1.
Ansiosa que estava por estrear o produto não clicou no ícone explicativo da embalagem animada, apenas jogou-a num canto da sala e prendeu o pluvioshield à cintura.
“Uma maravilha!” pensava agora Ana da mesma maneira que todos quando a dez anos atrás a Bluetec inventou os óculos dryvision, mas estes só ficaram em 37º lugar na votação para a invenção do século, apesar da intensa campanha publicitária feita pela empresa. Talvez por isso agora os tais óculos viessem como brinde pra quem comprasse o pluvioshield na “oferta imperdível” anunciada essa semana na HV (holographicvision, uma TV holográfica).
O aparelho em questão assemelhava-se a um cinto com uma grande fivela em formato de escudo. Era azul e feito de um material flexível que lembrava borracha, exceto pela parte da “fivela” que parecia mais ser feita de plástico. No centro via-se, em baixo relevo, a gravura de um pequeno guarda-chuva que parecia apenas um simples detalhe artístico do produto, mas começou a emitir uma luminosidade esverdeada de suas ranhuras quando foi tocado por Ana.
Ao abrir a porta de casa e aproximar-se da chuva não soube que os sensores do pluvioshield haviam sido ativados, nem que, em menos de um segundo, haviam feito uma análise completa da umidade relativa do ar. A única coisa que pode perceber foi um suave bip.
Em passos hesitantes caminhava agora para fora, onde a água caia sem piedade. Sentiu um frio na barriga de ansiedade e receio de que aquele mecanismo tão sofisticado pudesse estar com defeito. Resolveu fechar os olhos para criar coragem e prosseguir. Deu, às cegas, mais alguns passos à frente. Nada, nenhuma sensação diferente... Nada que pudesse anunciar um efeito tão espetacular quanto o prometido pelo comercial.
Ana estava apreensiva, quase decepcionada, mas de repente atinou para o fato de que nesse “não sentir nada de diferente” estava incluído também a chuva. Não sentia nem mesmo uma única gotícula tocar-lhe a pele. Estava agora perplexa. Pensou “uau!” e por um instante mais quis permanecer com os olhos cerrados sentindo apenas a leve brisa que se formava com o movimento da água caindo. Imaginou, por mais um instante, como seria quando abrisse os olhos pra poder comparar o que havia pensado com o que realmente aconteceria e ver se acertava. No momento seu estado mental beirava a euforia. Teve então a idéia de contar até três e abrir os olhos de uma vez. Respirou fundo e contou. Um... dois... três!
Estava estarrecida, pois a beleza do que via ia além do que imaginara. Sentiu-se bem e poderosa. Era agora como a versão feminina de Moisés. Era uma deusa: a deusa Ana.
Talvez tenha sido essa mesma emoção, provocada nas pessoas certas, que tenha feito o pluvioshield ganhar o 1º lugar no concurso da invenção do século, deixando em 2º uma invenção tão boa como o oz-prey. Mas quem se lembraria de um spray que protege contra os danos da excessiva radiação ultravioleta dos tempos atuais quando tinha na mão um efeito tão fabuloso quanto o proporcionado por um gerador de força hidrorrepelente (no caso um GFH-1)?
Via a chuva descortinar-se diante dela para deixá-la passar. Era uma rainha e, por isso mesmo, toda a água se curvava perante sua presença. O efeito visual da coisa toda era igual ao de estar protegida por um globo de vidro de um metro de diâmetro, só que não havia vidro algum. Algo bem surpreendente quando se pensa nos velhos e antiquados guarda-chuvas que, durante séculos, foram usados até que alguém tivesse uma idéia melhor.
Passado o surto megalomaníaco, estava pronta para caminhar. O único inconveniente agora era não poder ver o caminho com clareza devido às condições climáticas, mas isso foi logo resolvido quando colocou seus óculos dryvision que lhe permitiam ver tudo que não fosse água em qualquer um de seus estados. Feito isto, seguiu confiante rumo ao horizonte e além.
Foi aquele um momento feliz, talvez até memorável, apesar de semelhante ao de muitas outras pessoas naquele mundo e tempo específicos. Seria mesmo inesquecível para Ana, não fosse o fato de no dia seguinte inventarem as pluviovests, roupas que já vinham de fábrica equipadas com um GFH-2.

Ass.: Márcio Beckman.

domingo, 5 de agosto de 2007

O Leito sem Rio




Era um casal de namorados daqueles que se conheceram desde a infância. Estudaram juntos nas mesmas escolas, naturalmente sendo ótimos amigos, e na adolescência se apaixonaram. Entretanto nem tudo foram flores e com eles a vida foi realmente cruel.
As coisas ficaram sérias quando estavam na faculdade. Os dois estudaram juntos na mesma universidade: enquanto ele, Heitor, fazia jornalismo, ela, Ester cursava artes plásticas. Foi durante essa época que eles ficaram noivos.
O tempo passou e após se formarem Heitor arranjou um bom emprego num jornal por indicação de um amigo seu e Ester estava com planos de montar seu próprio ateliê. Tudo corria bem.
Um dia Heitor voltou do trabalho cansado, mas satisfeito, tanto que ainda teve disposição de ir até a casa de Ester e convidá-la para sair. Não era um dia especial aquele, mas apenas uma sexta-feira comum que, no entanto, acabou por se tornar um dia memorável quando ela lhe confessou estar grávida dele.
Um mês depois os dois estavam casados e felizes, pois apesar de terem adiado o casamento para tentarem primeiro estabilizar suas vidas, já pensavam nisso desde o inicio do namoro.
Foram passar a lua-de-mel numa cidade de praia, distante da agitação da cidade grande onde moravam e foi lá que tudo aconteceu. Não exatamente na cidade, mas a quinze quilômetros de sua entrada. Foi onde o carro de Heitor capotou e aconteceu o acidente que mudou suas vidas.
No hospital disseram que Heitor apenas havia sofrido escoriações leves, mas sua mulher estava em coma, entretanto o bebê que ela carregava ainda vivia e a gravidez pode transcorrer de forma normal.
Longos meses se passaram e o filho deles nasceu, sem, no entanto, Ester ter acordado. Heitor sempre ia ao hospital quando saia do trabalho e ficava lá cuidando dela, esperançoso de que um dia ela pudesse levantar daquela cama.
Depois de mais um ano de esperas em vão, decidiu pensar num nome para o filho, pois o mesmo não poderia ficar sem nome e o deu como um presente de aniversário. Lucas foi como o registrou.
Muitos anos se foram até que Heitor perdeu de vez as esperanças e resolveu se casar novamente, dessa vez com Joana, uma das enfermeiras que cuidava de Ester. Isso aconteceu no mesmo ano em que Lucas se formou em medicina.
Após casarem-se eles mudaram para outra cidade decidindo deixar o passado para trás, mas Lucas ficou, pois crescera obcecado com a idéia de um dia poder trazer sua mãe de volta e com isso deu muitas contribuições à evolução da medicina.
Em 30 anos de pesquisa, no entanto, nada havia funcionado e Ester, agora uma senhora idosa, continuava imersa em seu longo sono.
A vida estava passando para Lucas e ele somente pensava no seu único objetivo, sem plano sobre casar-se e sem cuidar muito de sua vida pessoal. Investia todo o seu tempo e dinheiro nas pesquisas com sua mãe.
Numa noite estava se sentindo amargurado por conta dos problemas e frustrações da vida, então resolveu passar a noite no hospital ao lado de sua mãe, o que costumava fazer quando estava com algum problema sério. Conversou com ela que, é claro, não respondeu, mas ele imaginava que ela talvez pudesse ouvi-lo. Acabou adormecendo por estar exausto de muitas coisas.
Dormiu muito profundamente aquela noite e sonhou que sua mãe, jovem como era quando ele nascera, brincava com ele criança nos jardins da casa de seu pai. No sonho ela o abraçou e disse-lhe que já estava crescido e que deveria viver sua própria vida. Sorrindo, ela lhe pediu pra que a deixasse ir e ele, com muito esforço, conseguiu soltá-la. Ela então caminhou para longe e sumiu de sua vista. Acordou muito triste e não conseguiu dormir pelo resto da noite olhando para Ester e pensando em tudo aquilo. Foi quando os primeiros raios de sol foram surgindo que respirou fundo e decidiu dizer adeus a sua mãe. Então Lucas simplesmente desligou os aparelhos e foi embora pra casa.

Ass.: Márcio Beckman.